entenda a causa

Na margem esquerda do Guaíba, com uma extensão de mais de três quilômetros, junto à capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, localiza-se o Cais Mauá, um dos mais valiosos patrimônios públicos da cidade.

Com uma vista deslumbrante para a paisagem natural, é importante ponto de contato da população com seu rio.

Do ponto de vista arquitetônico, o Cais Mauá é composto por um pórtico, 12 conjuntos de armazéns e uma edificação. O conjunto não foi construído de uma só vez, mas em etapas, a partir do primeiro trecho, em frente à Praça da Alfândega, entre 1911 e 1913. O pórtico central e os armazéns A e B são do período entre 1919 e 1922. Os demais armazéns datam de 1917 a 1927, e o prédio do DEPREC surgiu apenas em 1947.

O pórtico central e os armazéns A e B foram tombados pelo IPHAN em 1983, e a proteção foi reforçada pelo tombamento municipal do restante do conjunto em 1996, incluindo as 11 gruas para movimentação de carga, das quais, infelizmente só sobraram 4.

Os armazéns, com suas coberturas com cumeeiras e telhados repetidos em duas águas, criam um ritmo arquitetônico contínuo de belo efeito. É o cartão postal da cidade de Porto Alegre.

No início desse século, o Cais Mauá passou a ter diferentes usos: feira do livro, feiras de agricultura e artesanato, Bienal, ensaio da orquestra municipal, shows, festas abertas. Tudo foi proibido desde que o consórcio assumiu a área e vetou o acesso da população.

O CAIS MAUÁ é uma área pública, ou seja, de cada um de nós. Sem que tivesse havido concurso de projetos ou pesquisa com os habitantes da cidade, a área foi entregue a um consórcio que planeja a construção de shopping, torres e estacionamento, um projeto anacrônico que vai descaracterizar a região, prejudicar o comércio de porta de rua, a matriz econômica do centro da cidade, e congestionar ainda mais a avenida Mauá que já é insalubre, feia e poluída.

 

POR QUE A LUTA É NECESSÁRIA

Os exemplos de luta da população por seus patrimônios naturais e históricos são incontáveis. Em geral ela inicia por um grupo de pessoas dispostas a enfrentar o apagamento da memória, a destruição do patrimônio público. O passo seguinte é informar os demais cidadãos sobre as ameaças e assim ampliar a adesão à luta.

Na Holanda, nos anos 50 houve um movimento para esvaziar os canais de Amsterdã, cobri-los com cimento e transformá-los em autoestradas. O argumento das autoridades era a necessidade de modernizar a cidade. Os canais são hoje o maior atrativo turístico da capital holandesa e estão mantidos pela resistência dos cidadãos.

Porto Alegre é também um exemplo dessas lutas. Nos anos 70, o prefeito Telmo Thompson Flores tentou demolir o Mercado Público para “modernizar” o centro da cidade e dar mais fluidez ao trânsito. Algumas poucas vozes declararam publicamente seu repúdio, fizeram intensa campanha contra a derrubada e salvaram, para as gerações posteriores, o Mercado Público que é hoje apontado com orgulho como um dos locais emblemáticos da capital.

Da mesma forma, em 1974, por estar no caminho traçado para a Primeira Perimetral, a Usina do Gasômetro esteve na mira dos destruidores. Mais uma vez um grupo protestou, e a Usina se manteve. E com ela mais uma fração da nossa história.

Sem a união da cidadania contra os interesses meramente comerciais dos gestores, as cidades estariam descaracterizadas, padronizadas, monótonas, desinteressantes.

 

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